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| I'm not like them. But I can pretend. |
Parece que foi ontem, mas já faz 21 anos desde que o esporro
sonoro catalisador do Nirvana e de seu Nevermind mudou pra sempre a história do
rock e da indústria musical.
Goste-se ou não da banda, este é um fato incontestável.
E quando pensamos em Nirvana, é inevitável que Kurt Cobain surja
em nossa mente com facilidade galopante. Não é pra menos, ele era líder e
fundador do grupo. Autor dos clássicos que até hoje perambulam incessantemente
pelas rádios da vida e nas telas de vídeo clipes pela web.
Há uns 10 anos, foi lançada esta interessantíssima biografia
de Kurt Cobain, “Mais pesado que o céu” de autoria de Charles R. Cross. Sei lá
porque raios demorei tanto tempo pra comprar e ler. Mas finalmente terminei a
leitura no mês passado.
O que posso dizer?
Bem, é um livro muitíssimo bem escrito, com ótima narrativa
dos fatos. O autor fez uma excelente e vasta pesquisa. Procurou ser isento na
medida do possível. O sucesso na empreitada foi conseqüência habitual devida.
Ler um livro destes sempre remete à sensação de “ampulheta”.
Contagem regressiva. Até porque já
sabemos o final da história. E isso é - em certo momento - agonizante.
Está lá tudo que você já deve ter lido sobre o líder do
Nirvana por aí e um pouco mais: a infância pobre e conturbada na caipira Aberdeen.
As relações complicadíssimas da família Cobain (pais separados, bebidas,
suicídio e tudo mais). A paixão de Kurt pela música como válvula de escape para
tanto sofrimento. A sensibilidade ímpar e talento artístico que já se
manifestavam nos tempos de escola. As namoradas e amigos. O gosto pelo bizarro
e mórbido.
Características essas que formavam o grosso caldo inspirador
para o que, futuramente, viria a ser o Nirvana.
E falar da banda é um pouco complicado. Eles despertam
paixão e ódio.
Kurt era um sintetizador. Condensava influências como poucas
vezes se viu na história da música. Tanto musicalmente, como liricamente.
Conseguia dizer muito com muito pouco. E isso, claro, irritava a todos aqueles
invejosos que são reis dos eufemismos, das redundâncias, dos pleonasmos
artísticos.
O lirismo de Kurt Cobain era certeiro. Cínico, cruel e denso.
Expunha as vísceras de uma geração de jovens que o “American way of life”
sempre tentara esconder do resto do mundo. Em suma, o Nirvana era isso, mas
também era muito mais.
Para o bem e para o mal, o Nirvana foi a banda que
arrebentou com a barreira que separava o rock independente do rock mainstream.
Depois deles, a indústria nunca mais foi a mesma.
Cobain oscilava entre o gênio sensível, compositor de obras
belíssimas e o escroto drogado que brigava e exigia a maior parte dos direitos
autorais das músicas contra companheiros de longa data, como é o caso do Chris
Novoselic. Outros atos também depunham contra a imagem de rockeiro “rebelde”
que ele tentava passar para o grande público. Em alguns instantes a gente vê
claramente o quão mesquinho era o sujeito.
Kurt também era hábil em florear histórias. Mitificar e
fantasiar acontecimentos banais para ser cool. Só pra citar um exemplo: para
demonstrar que tinha “atitude”, Kurt dizia que o primeiro show que havia
assistido era um do Black Flack (seminal banda de punk rock americana). A
verdade era diferente: o primeiro show da vida Mr. Cobain havia sido um do
Sammy Hagar.
Mas é incontestável que o grande problema na vida de Kurt
Cobain foram as drogas, em especial, a heroína que o consumiu com efeito voraz.
Muito se comenta sobre o fato de Courtney ter sido má
influência para o músico no uso de drogas pesadas, o que é facilmente
desmentido através de vários e vários relatos e acontecimentos.
O lance é que Kurt Cobain era auto-destrutivo por
excelência, destruiu-se por si só, e mesmo com todos os tratamentos e
internações não foi capaz de superar seus maiores demônios. O resultado disso
tudo, a gente já conhece bem.
Mas o livro também traz momentos muito divertidos como o
episódio em que eles sacaneiam e tocam a introdução de “Rape Me” ao vivo no MTV
Vídeo Music Awards para desespero dos executivos conservadores da emissora. Ou
quando, em um show do Nirvana, ninguém menos que Eddie Van Halen aparece bêbado
nos bastidores e se ajoelha implorando para fazer uma participação no show.
Cobain, irredutível, nega e ignora o guitarrista. Coisas da vida. Histórias do
rock.
Ao enfiar um balaço na cabeça, Cobain abreviou uma carreira
que poderia ser ainda mais interessante que já era. Não cabe a este que vos
escreve dizer se ele foi covarde ou se foi corajoso. Esse tipo de atitude
demanda análises e mais análises que dificilmente obteriam respostas plenas,
mas o mais importante de tudo nunca volta: a vida.
E vida e vigor eram o que emanavam das guitarras, da voz e
do fundo da alma daquele loirinho que cantava e berrava como se fosse a última
vez que estivesse no palco.
E isso, morte alguma pode evitar.