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quarta-feira, 22 de maio de 2013

O que fazer com o blog quando se tem muitas ideias, pouco tempo e uma certa preguiça?





Deve existir algum bloqueio mental que não tem me permitido escrever textos bacanas para o blog ultimamente.

Sei lá o que se passa. Sei que os textos têm saídos no piloto automático. De uma maneira que eu, particularmente, não gosto de escrever. Soa artificial.

Já cogitei acabar com o blog, mas desisti rapidamente da ideia. Eu gosto de escrever, trabalho com isso. Mas escrever é bacana quando a gente ta inspirado.

Então, caríssimo e escasso leitor, não estranhe se o blog der uma parada básica por alguns dias.

Preciso renovar o espírito pra escrever algo bacana novamente.

Enquanto isso, vou postando alguns textos antigos que passaram desapercebidos. Só pra girar o fluxo.

Grande Abraço.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Virada Cultural e o amendoim fosforescente



Nesse final de semana rolou a Virada Cultural, famoso evento que visa oferecer uma alternativa cultural – e porque não? – de diversão para toda a população da cidade de SP.

O evento em si é até interessante: reunir diversas atrações em vários pontos da cidade. Movimenta a coisa toda e tira aquela cara “cinza” da terra de Paulo Maluf.

Os turistas abundam por estas paragens. Donos de hotéis sorriem. Idem para os de restaurantes. A economia gira.

Sexta-Feira, conferi a programação com maior cuidado.
Na realidade, quase nada me animou a tirar os pés de casa, com exceção do grande mestre George Clinton.

Eu até acho bem legal a ideia e conceito da Virada. Cultura é sempre bacana.
Mas confesso que não tenho mais um pingo de saco pra enfrentar muvuca, ausência de segurança, condições de higiene lamentáveis e afins.

Prefiro, muito mais, o conforto de algum outro programa cultural pago e mais sossegado. Não se trata de visão elitista ou bobagens do tipo. É uma constatação.

O lance é que a maior parte das pessoas, infelizmente, não está preparada para assistir a um show (isso também vale para aqueles que a gente paga ingresso caro), a uma peça e saber respeitar os outros (isso deveria ser algo bastante óbvio, não!?).

Já perdi a conta de quantos eventos, em locais abertos, eu fui e que poderiam ser bacanas, mas que acabaram tornando-se verdadeira dor de cabeça.
As pessoas simplesmente não sabem aproveitar as oportunidades que têm.

Óbvio que poder presenciar um som ao vivo é sempre uma experiência única. Faz toda a diferença. Bem, ao menos fazia...

Hoje em dia, tem faltado espontaneidade para os artistas que se contentam – na maioria das vezes – em nos oferecer shows mornos, insossos, conduzidos no piloto automático.

E, na boa, não dá vontade de sair de casa pra ver show preguiçoso (por parte do artista) com cachê pago com verba pública. Esse tipo de coisa deveria ser financiado pela jurássica iniciativa privada paulistana que só sabe reclamar. Mas aí seria pedir muito.

Enfim, poderia falar muito sobre os prós e os contras da Virada, mas seria chover no molhado e eu já to de saco cheio deste assunto.

Mas você deve estar se perguntando, "E o amendoim fosforescente do título, Marcelo?!".
Você acreditou mesmo, leitor? 
Era só pra chamar atenção pra um texto tão insosso quanto este. 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Era uma vez no oeste: troque a pipoca pela macarronada




Faroeste é um gênero tipicamente americano. Tem tudo a ver com a cultura e a história dos colonizadores que atravessaram o país do Tio Sam em busca de uma vida melhor.


E sabendo disso, fica sempre estranho imaginar que alguns dos melhores filmes do gênero tenham sido feitos por um italiano conhecido por Sergio Leone.


Entre estas grandes obras, encontra-se “Era Uma Vez no Oeste”.

Dias destes, achei o Blu Ray do filme por um preço interessante. 
Comprei, claro. Felicidade tremenda.



Evitarei fazer trocadilhos de duplo sentido.
Filmes de faroeste, nós sabemos bem, versam sobre vingança. Fulano fez algo de mal pra sicrano no passado. Sicrano sai atrás da desforra contra fulano. Não tem frescuras estilísticas ou coisas do tipo. É algo simples e fácil de entender.


A história deste glorioso “Era Uma Vez no Oeste” é basicamente isso: vingança.

Claro, no filme, Leone dá um jeito de amarrar outros ganchos.


O enredo gira em torno de uma família assassinada, uma prostituta (a estonteante e bela Claudia Cardinale), a construção de uma estrada de ferro e o surgimento de um misterioso atirador (Charles Bronson) com pontaria certeira e aptidão para tocar uma gaita.


E aí, vai encarar!?
Leone sabia fazer faroestes como poucos. Seus caubóis eram sujos, feiosos e de má aparência. O ideal do caubói americano à la propaganda de cigarro não passa nem perto.


Nos filmes do diretor italiano, o deserto é mais árido, a sujeira é mais suja, o suor é mais escorrido. A violência é escancarada e potencializada.


Através de imagens ou do áudio - muitíssimo bem captado e utilizado -, o diretor brinca com o ritmo e com a decupagem de ideias. Os planos de câmera são estáticos, parecem verdadeiros quadros. Sensacionais. O ritmo de narrativa cria tensão, desperta interesse. Segura o espectador até o último minuto. Usar o silêncio das cenas era umas grandes sacadas do diretor. Ele fazia isso com maestria.
E isso por que a trilha sonora era composta pelo genial Enio Morricone.


Leone espertinho...
A atuação dos atores é o que se pode esperar de um elenco do tipo num filme do gênero nos anos 60. Nada acima da média. Mas vale destacar o papel de Charles Bronson interpretando o misterioso atirador e a maravilhosa, deslumbrante, linda, divina Claudia Cardinale que faz meu coração acelerar toda vez que surge na tela.


Obviamente, o orçamento da película era bem reduzido, mas o diretor compensava com excelentes ideiaa.


Mesmo sendo um filme repleto de personagens durões, Leone era esperto o suficiente para “quebrar” a seriedade da narrativa e dosar tudo com humor. A cena do tiro através da bota não me deixa mentir. Macarrônica, no melhor sentido do termo, faz jus à genialidade deste grande diretor e ainda presta uma “homenagem” inconsciente ao mapa do país de origem de Leone. Sutileza é para poucos.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O dia que Dredd desafiou São Tomé



Rá, sou mais reaça que o Reinaldo Azevedo!

Tempos atrás eu li a notícia que a Editora Mythos iria publicar o Juiz Dredd aqui no Brasil. Não só as sensacionais aventuras do juiz reaça, mas também muitos outros personagens da revista inglesa, 2000 AD.


Não sou cristão, mas gosto da máxima de São Tomé: ver pra crer.


Esperei. As notícias aumentaram.

Máxima de São Tomé persistindo.


Capa da revista disponível na internet e nas redes sociais.

Máxima de São Tomé irredutível.


E eis que, finalmente, me deparei com Juiz Dredd Megazine materializada nas bancas.

Comprei, lógico.


A revista é uma bela sacada da Mythos. Traz material antigo da 2000 AD (e existe muuuita coisa interessante que eles lançaram através dos anos).


Só pra contextualizar: a 2000 AD é uma publicação semanal que reúne um mix de histórias curtas e diretas (geralmente versando sobre sci-fi e afins). Os textos são repletos daquela fina ironia inglesa e até humor. Desta publicação surgiram vários roteiristas/desenhistas que, mais tarde, viriam a ter sucesso nos EUA. Gente como Alan Moore, Alan Grant, Brian Bolland, Dave Gibbons, Brian O´Neil, Pat Mills, Grant Morrison, Alan Davis entre muitos outros.


A primeira edição que a Mythos lançou é bem interessante. Um mix entre material antigo e recente.


De início temos uma aventura de Judge Dredd dos anos 80. Típica narrativa da época com a arte do magistral Brian Bolland. Diversão pura.


A seguir vem “Área Cinzenta”, sci-fi repleto de aliens e ainda inédito no Brasil. Bem desenhado, mas um tanto insosso. Aguardemos os próximos capítulos pra sabermos o que vai se desenrolar.


Depois somos tomados pelo mundo do, já conhecido, guerreiro celta, Sláine. Divertido e descompromissado, mas com um ranço oitentista enorme no roteiro de Pat Mills. Por sua vez, a arte de Angie Mills, ex-esposa do escritor soa datada também, mas é muito competente. Belo domínio de claro escuro.


Nikolai Dante foi, de longe, a melhor surpresa da revista. A distopia se passa numa improvável e divertida Rússia futurista. O sedutor personagem certamente tem muito a crescer, mas a primeira história já deixou uma ótima impressão. Não que o texto de Robbie Morrison seja ruim (muito pelo contrário), mas o grande destaque fica para a belíssima arte de Simon Fraser. Enche os olhos.


E aí, vem a pedrada total. Quer dizer, vem o tiro de bazuca no peito: um senhor conhecido como Alan Moore no roteiro e um tal de Dave Gibbons nos desenhos. A história é “Distorções Temporais”. Primeira parceria da dupla que ficou famosa mundo afora com Watchmen. Em apenas 5 páginas, Moore mostra o porque de ser tão aclamado, genial, soberbo, fantástico entre muitos adjetivos que você queira usar. História curta e sensacional que mostra o que um roteirista esperto pode fazer com poucas páginas. A arte em preto e branco de Gibbons dá conta do recado com sobra. O que temos é uma pequena obra-prima. Algo como um aperitivo ou degustação do que esses dois iriam fazer no futuro.


Pra fechar a edição, temos uma aventura mais atual – e muito boa - do Juiz Dredd escrita por John Wagner e desenhada por Henry Flint.


A publicação ainda traz textos explicativos sobre a história da 2000 AD e de cada um dos personagens, bem como dos seus respectivos autores.


O acabamento é legal: formato magazine (daí o trocadilho infame do título), miolo em papel couché e um preço bem bacana, R$ 10,90.


A editora condiciona a continuação da revista de acordo com a receptividade nas bancas. Nada mais natural, afinal de contas, estamos falando de um produto e da óbvia necessidade de se ter lucro para publicação ser mantida.


De minha parte, farei de tudo para que a revista siga adiante trazendo este excelente material da 2000 AD.


Mas conhecendo as editoras brasileiras, é sempre bom ficar com um pé atrás, ou como o diria o tal São Tomé lá do começo do texto: é ver pra crer.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mais um livro que tenta entender a grandiosidade de Chaplin



Biografias são interessantíssimas.

Pouco importa se a qualidade destas é duvidosa ou realmente fiel.


Quanto mais dados e informações sobre o biografado, maior a probabilidade de se formar um recorte verdadeiro, um quebra-cabeça infinito de pequenos detalhes deliciosos que nos ajudam (e muito) a tentar entender um pouco mais sobre personalidade mencionada.


Charles Chaplin é um ícone do cinema e da cultura mundial.

O talento deste inglês é inegável. É gigantesco. Criou o inesquecível Carlitos, um ser mítico, eterno no inconsciente das pessoas que gostam (e até dos que não gostam) de cinema mundo afora. 


Seus filmes foram e ainda são vistos repetidamente por várias gerações.

O diretor e ator sabia fazer rir como poucos. Também conseguia fazer todo mundo chorar. Um manipulador de emoções. 


Portanto, não é de se espantar que Chaplin tenha sido alvo de várias biografias (uma delas, ainda em vida, enquanto começava a despontar nos EUA). 


Obviamente que não li a maioria destas. Pra falar a verdade, não havia lido nenhuma antes (só uma muito pequena que sequer merece ser considerada), mas, há algum tempo, assisti alguns documentários interessantíssimos sobre a vida deste notável artista.


E quando me deparei com “Chaplin, uma vida”, é óbvio que minha, já previsível, curiosidade foi ainda mais atiçada. Não tive dúvidas. Fui ler.


Escrito pelo renomado psiquiatra e professor da Washington School of Psychiatry, Stephen Weissman e lançado pela editora Larousse do Brasil (em 2010), o livro é uma verdadeira pedrada nas habituais biografias água com açúcar que só falam bem dos biografados. Aquelas “lindas, bonitas e joiadas” que costumam infestar as livrarias brasileiras. 


Aqui a abordagem é mais cruel e realista. Aponta a genialidade, mas não omite os defeitos e os “podres”. O autor viaja fundo na pesquisa, mas também procura fazer conexões entre a vida e obra de Charles Chaplin. Busca caminho na psique do ser humano para encontrar reflexos na obra do ator, roteirista e diretor. 


O caldo é proveitoso.

Chaplin teve infância pobre, miserável. Chegou a ser internado num orfanato por curto período de tempo. Experiência horrível que levou por toda a vida.


Prodígio e genial desde pequeno, ele era filho de pais artistas fracassados. O pai era alcoólatra. A mãe era uma tentativa de alpinista social com uma certa atividade sexual destoante para a época (dizem até que se prostituiu em alguns momentos da vida para obter benefícios), e que acabou contraindo sífilis, o que acarretou em loucura.


Essas e muitas outras histórias se fazem presentes nesta bela análise de Weissman, que é dono de excelente narrativa e ainda possui grande conhecimento técnico do que escreve. Para o sucesso da empreitada, houve usou farta pesquisa documental.


O livro se torna fascinante porque o autor tenta entender - e ainda transpor - todo o caldeirão emocional que contribuiu ferozmente para que Chaplin moldasse sua própria personalidade e através dessa parisse obras-primas inesquecíveis. 


Alguns relatos da vida de Chaplin são tão tangíveis e sintomáticos que é impossível não conseguir visualizá-los em seus filmes. Neste caso, a arte imita a vida.


E é uma pena que o autor dê ênfase apenas a fase “antes-da-fama” de Chaplin e pouco mencione detalhes a partir do momento que o astro inglês domina as plateias dos EUA com filmes memoráveis. Existem histórias interessantíssimas sobre essa época. 


Weissman também menciona, de maneira superficial, a fase de perseguição (os reacionários de sempre) que Chaplin sofreu na terra do Tio Sam, a ponto de ter que sair do país e ter seus filmes boicotados.


Ao término do livro fica uma boa impressão sobre o trabalho do psiquiatra.

A obra não é – nem de longe – a biografia definitiva. E nem se propõe a isso. Mas é sim, desde já, mais uma importante peça para a construção do quebra-cabeça sobre a genialidade e excelência deste enorme talento que foi Charles Chaplin.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

High Violets: meu novo vício





Já ouviu falar de High Violets, caro leitor?

Não?

Não se preocupe. Você é normal. Muita gente não conhece. 


Bem, estou sendo bonzinho na afirmação. Na verdade, nenhum dos meus amigos aficionados por música conhecia essa banda (e eu estou falando de gente que tem conhecimento musical enciclopédico).


Eu também não conhecia. Encontrei-a em dezembro passado - por acaso - numa destas minhas pesquisas infindáveis por novas bandas e sonoridades através da vastidão da web.


E por que o High Violets é uma banda que merece ser citada neste humilde blog?

As razões são diversas, mas o espaço é curto. Tentarei enumerá-las, aos poucos, abaixo.


Kaitlyn e seu mundo de sonhos.
Primeiramente, eu posso dizer que eles aparecem aqui por que são bem legais. Eu jamais gastaria meu precioso tempo livre pra ir atrás e indicar uma banda que fosse chata ou pedante.


O High Violets é uma banda de Portland, noroeste dos EUA, já com uns bons anos de atividade.


O grupo é resultante das cinzas do desconhecido The Bella Low. Formada em 1998, sua primeira line up contava com Clint Sargent (guitarras e vocais), Luke Strahota (batera) e Violet Bianca Grace (baixo e vocais), mas foi só em 2000, quando a bela e talentosa multi instrumentista clássica, Kaitlyn Ni Donovan (violino, guitarra, viola, violão, bandolim, ukulele, piano, dulcimer e cello) se juntou ao grupo que a coisa andou definitivamente como banda. 

Chegaram a lançar alguns interessantes álbuns que foram devidamente ignorados pela imprensa brasileira (se eu estiver errado, por favor, me corrijam).


A sonoridade é etérea, bastante peculiar e interessante. Um cruzamento de Cocteau Twins, Jesus and Mary Chains, Lush e similares. Parece trilha sonora dos filmes do David Lynch.

As guitarras são lindas, destilam texturas em doses generosas. 


Os vocais se revezam nas faixas, alternando o angelical de Kaitlyn e o quase sussurado de Clint Sargent (à la Jim Reid do Jesus and Mary Chains). Um belo contraponto.


O som beira o transcendental. Atmosférico e onírico. Deixa a sensação que a gente vai flutuar a qualquer instante. O bom gosto é ímpar, permeia todas as canções. Instiga uma deliciosa sensação de ser transportado para outra dimensão. Pero o mais interessante do High Violets é que a banda pega todas essas influências citadas e as acomoda numa belíssima e irresistível embalagem de melodias pop.


Felizmente, eles têm uma quantidade grande de ótimas músicas que você deveria conhecer assim que terminar de ler este texto. Então, pra facilitar seu caminho e deixar de lado a enrolação, te dedico essa, caro leitor. Divirta-se. É só clicar aqui.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Re-animator: uma gracinha de filme



NÃO! NÃO PODE ENTRAR! 


A mensagem era clara e era dirigida a mim e a outro amigo na porta do glorioso e (hoje) extinto, Cine Alvorada, em minha cidade natal.


Eu tinha 11 ou 12 anos e estava tentando entrar para assistir “Re-animator”, um clássico do cinema de terror dos anos 80.


Mas os resquícios da ditadura e a classificação etária não me permitiam. O filme era apenas para “maiores de 14 anos”. Um outro amigo que nos acompanhava conseguiu entrar. Era maior e gordinho. Malditas leis imbecis.


Quer a injeção no braço ou nas nádegas, meu filho?
Fui assistir Re-animator somente alguns anos depois pela TV. Acho que no SBT.

Dias atrás eu dei um pulo numa mega store que freqüento religiosamente e encomendei o DVD deste clássico do terror e da tosqueira oitentista.


O filme é levemente baseado no conto “Re-animator” do bizarro e genial escritor H.P.Lovecraft.


O plot da história é bem simples: o estudante de medicina/cientista Herbert West descobre uma substância que “reativa” os mortos e passa a fazer experiências mirabolantes com essas descobertas. Daí, você já pode imaginar a série de confusões que ele vai causar com uma turminha do barulho (momento redator de vinheta Sessão da Tarde).


Oi, você vem sempre aqui!?
Transpor os com contos de H.P.Lovecraft para o cinema não é da tarefa das mais fáceis, pois são repletos de simbolismo, terror e loucura. E isso pode ser um tiro pela culatra.


Felizmente, o diretor Stuart Gordon preferiu dar tons de comédia e humor negro para um filme que certamente rumaria para algo mais denso e pretensioso, em outras palavras: com grande chance de ser uma bela porcaria.


Ciente que tinha um orçamento ridículo (apenas novecentos mil dólares), Gordon, sem querer, acabou criando um clássico do gênero, algo que se tornou “cult”.


As razões para o filme ser divertido são muitas: o ritmo rápido, o roteiro simples,mas muito bem sacado, a ambientação, os (d)efeitos especiais, as atuações macarrônicas e impagáveis, entre muitos outros detalhes que podem deixar um filme funcional ou não.


Sabe quando você veria uma cena assim nos filmes de hoje?
Óbvio, a tosqueira impera (a cena do gato revivido atacando o pescoço do personagem é não menos que hilária). Mas até pra ser tosco há de se ter “crasse”. E o isso “Re-animator” tem de sobra.


O clima mórbido e o espírito de porco prevalecem. As mortes são um caso à parte. Sempre exageradas. As vísceras e o sangue jorram por toda tela. Soa como se fosse um encontro entre o Jason de Sexta-Feira no antigo programa dos Trapalhões. Politicamente incorreto no talo.


Cheeeega! Não quero mais ler esse texto nojento.
E, claro, tem a infame cena da cabeça degolada tentando fazer sexo oral numa pobre moçoila nua. Se você não rolar de rir dessa cena, é sinal de que está assistindo o filme errado.


Ao ver o DVD, a gente constata que, na TV, a “censura” cortou mais cenas “pesadas” do que qualquer serial killer poderia imaginar. 


Passados quase 30 anos do lançamento, o filme continua bacana. Rende diversão garantida e descompromissada para quem curte o gênero.


Mas também deixa a tristeza caracterizada ao me fazer constatar que, se hoje eu já não posso mais ser barrado (pela idade) ao tentar ver algo do tipo no cinema, também não tenho mais interesse algum em assistir as produções atuais de terror, que primam pela ruindade (no mau sentido).


É, definitivamente, a vida não é perfeita.



terça-feira, 23 de abril de 2013

Batman - O que aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?


Bela arte do Kubert

Como se constrói um mito?
Aí está uma boa questão para ser analisada.

Se eu soubesse exatamente, é muito provável que jamais revelaria o segredo por aqui, afinal de contas, iria usar tal conhecimento na minha área de atuação profissional e ganhar muito dinheiro para ter uma aposentadoria tranqüila e garbosa em alguma ilha paradisíaca no Caribe ou nos Alpes Suíços.

Mas tenho lá vários palpites sobre o assunto.
Uma das coisas que eu acho essencial para um mito é a capacidade inerente de renascer.

E como renasce um mito?
Bem, ele se renova através das gerações mais jovens que acrescentam algumas características e limam outras tantas indesejáveis. Um árduo e inconsciente trabalho da idealização perfeita. Isso é algo que ocorre muito com as religiões: retira-se a parte “suja” e deixa-se apenas a fase “linda, bonita e joiada” dos seus deuses, santos e afins. É histórico. Fácil de ser comprovado através dos tempos.

Mas e quando o papo ruma para as HQs (razão deste texto mequetrefe)?
Bem, a coisa não difere tanto assim. As HQs funcionam como um microverso da história da espécie humana (hoje estou filosofando jabuticabas, leitor), e como manifestação artística legítima, elas não poderiam estar isentas deste tipo de raciocínio que eu citei acima.

E poucos personagens em HQs são tão mitológicos quanto o morcegão que patrulha as ruas da fictícia Gotham City.

Batman é um personagem interessantíssimo. Mítico. Icônico. Teve muitas e muitas interpretações desde que Bob Kane o criou lá no final dos anos 30. Da abordagem soturna até a mais bem humorada, vários autores quiseram deixar para sempre sua visão pessoal do personagem ou escrever uma simples e boa história.

Entre muitos destes talentosos (e outros nem tanto) escritores, se faz presente aquele inglês de gosto refinado, de textos poéticos e oníricos: um tal de Neil Gaiman.

E ele é a estrela deste, “Batman – O Que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?”.
A história em si é bem legal e fala de...(...)...segredo, leitor. Achou mesmo que eu iria estragar o seu prazer de leitura?!

Bem, mas só pra atiçar sua curiosidade, dá pra dizer que é uma história fechada e que – melhor de tudo – é escrita por Neil Gaiman. Isso faz toda a diferença no resultado final.

Então não espere achar nada muito usual, pois estamos falando de um dos grandes gênios da escrita no que se refere aos quadrinhos.

A história é uma grande homenagem ao morcegão mais querido dos leitores. Uma grande deferência a toda a herança mitológica através dos anos, além de uma bela análise psicológica/espiritual (sem cabecismo barato) sobre o que motiva o Batman a ser o que é.

Nas mãos de um escritor ruim seria um tiro certeiro de bazuca no pé, mas nas mãos de Gaiman, ganha uma aura surreal, metafísica e que realmente emociona.

Acompanhando o escritor inglês está Andy Kubert (o “menos” talentoso da família) que traz uma arte simplesmente linda, que paga tributo a grandes artistas do passado. É muito divertido tentar adivinhar as homenagens nos traços emulados.

A dupla teve grande sinergia e nos brindou com uma ótima história. Claro, não se trata de nada tão definitivo quanto “A Piada Mortal”, “Batman – Ano Um” ou até mesmo “Cavaleiro das Trevas”, mas é daquelas aventuras que nos faz abrir o sorriso fácil. E isso significa muito nos dias em que os quadrinhos são inundados por tramas pífias e sem pé, nem cabeça.

Ao final dessa história você ainda pode conferir uma seção de extras com vários esboços do Batman e inimigos assinados por Andy Kubert.

O encadernado ainda traz mais 4 historietas escritas por Neil Gaiman, inclusive uma que constou em “Batman - Preto e Branco” em parceria com Simon Bisley e outras que saíram – se não me engano - num Superalmanaque DC, pela Editora Abril em 1990. Todas muito boas e que valem uma leitura com a devida atenção.

A edição da Panini é bem cuidada: capa dura, 132 páginas em papel couché. O preço é bacanudo: apenas 21,90 para um material bem legal e que fica bonito na estante.

Certamente faz jus ao legado do grande e único cavaleiro das trevas. E ainda mantém viva a construção do mito.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

Descendo a Rua Augusta a 120 por hora


Direção pra vida

“Eu seeeeeeei,
Tô correndo ao encontro dela,
Coração tá disparado,
Mas eu ando com cuidado,
Não me arrisco na banguela...”

Poucas vezes na história deste blog eu fiz um título tão sem vergonha pra chamar a atenção dos escassos leitores e contar uma história banal.
Mas o blog é meu, e por essa razão, faço dele o que bem entender.

Todo dia, acordo cedo e rumo para o serviço.
A rota é bastante simples: Augusta abaixo em caminhada até o metrô Anhangabaú. De lá, sigo para a editora onde orgulhosamente trabalho.

Hoje, ao fazer esse incrível e monótono caminho, reparei que havia uma senhorita de nobre garbo andando bem próximo, atrás de mim.

Ao parar no final da quadra e esperar o sinal para atravessar a rua, notei que ela era muito bonita e interessante.

Ela passou a andar na minha frente: cabelos lisos, pele clara, baixa estatura, corpo bonito. Formosura e garbo pós-juvenil. Trajava calça preta, blusa amarela e sapato baixo azul escuro, óculos de aros grossos. Quase uma geek, ou it girl rumando para o serviço com passos curtos e apressados.

E aí, eis que me baixou o “Momento-Roberto-Carlos-caminhoneiro” e resolvi desengrenar, e “jogar na banguela”. Inspirado por Nelson Piquet, olhei o meu retrovisor, acelerei e fiz uma ultrapassagem incrível.
Sei lá porque fiz isso. Mas fiz. Às vezes faço muitas coisas idiotas. Essa foi uma.

Qual não foi minha surpresa ao notar que a digníssima senhorita não curtiu sua situação de Rubinha Barrichello. Em represália, a bela garota (fuselagem em dia) hesitou um instante, mas incorporou o espírito Ayrton Sennico e buscou força em seu motor aspirado da moçoila. Num esforço de raça competitiva revidou a ultrapassagem. Ousadia pura.

Aproveitando que, em meus fones de ouvido, rolava Queens Of The Stone Age, um típico som de caminhoneiro americano, não aceitei tamanho desrespeito. Onde já se viu alguém vir fazer tal manobra em pleno meus domínios augustianos?

Turbinei meu All Star com nitro. Pobre coitada. Foi humilhada novamente. Manobra digna de Keke Rosberg. Comeu poeira das obras de construção.

Mal sabia que eu lidava com uma espécie de Gilles Villeneuve de saias – no caso, de calça preta – e que não aceitou ficar pra trás. A bela senhorita emparelhou sua peitaria ao meu lado e disputamos espaço lado a lado na calçada. Travamos uma disputa acirrada, digna de Arnoux e Villeneuve até chegar ao final da quadra.

Lá, o sinal vermelho nos parou. A moça virou à esquerda (deve ter ido pros boxes). Eu segui em frente. E tudo foi lindo, bonito e joiado para sempre.
Fim de prova.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Mais pesado que o céu: finalmente eu li


I'm not like them. But I can pretend.

Parece que foi ontem, mas já faz 21 anos desde que o esporro sonoro catalisador do Nirvana e de seu Nevermind mudou pra sempre a história do rock e da indústria musical.
Goste-se ou não da banda, este é um fato incontestável.

E quando pensamos em Nirvana, é inevitável que Kurt Cobain surja em nossa mente com facilidade galopante. Não é pra menos, ele era líder e fundador do grupo. Autor dos clássicos que até hoje perambulam incessantemente pelas rádios da vida e nas telas de vídeo clipes pela web. 

Há uns 10 anos, foi lançada esta interessantíssima biografia de Kurt Cobain, “Mais pesado que o céu” de autoria de Charles R. Cross. Sei lá porque raios demorei tanto tempo pra comprar e ler. Mas finalmente terminei a leitura no mês passado.
O que posso dizer?

Bem, é um livro muitíssimo bem escrito, com ótima narrativa dos fatos. O autor fez uma excelente e vasta pesquisa. Procurou ser isento na medida do possível. O sucesso na empreitada foi conseqüência habitual devida.

Ler um livro destes sempre remete à sensação de “ampulheta”.  Contagem regressiva. Até porque já sabemos o final da história. E isso é - em certo momento - agonizante.

Está lá tudo que você já deve ter lido sobre o líder do Nirvana por aí e um pouco mais: a infância pobre e conturbada na caipira Aberdeen. As relações complicadíssimas da família Cobain (pais separados, bebidas, suicídio e tudo mais). A paixão de Kurt pela música como válvula de escape para tanto sofrimento. A sensibilidade ímpar e talento artístico que já se manifestavam nos tempos de escola. As namoradas e amigos. O gosto pelo bizarro e mórbido.

Características essas que formavam o grosso caldo inspirador para o que, futuramente, viria a ser o Nirvana. 
E falar da banda é um pouco complicado. Eles despertam paixão e ódio.

Kurt era um sintetizador. Condensava influências como poucas vezes se viu na história da música. Tanto musicalmente, como liricamente. Conseguia dizer muito com muito pouco. E isso, claro, irritava a todos aqueles invejosos que são reis dos eufemismos, das redundâncias, dos pleonasmos artísticos.

O lirismo de Kurt Cobain era certeiro. Cínico, cruel e denso. Expunha as vísceras de uma geração de jovens que o “American way of life” sempre tentara esconder do resto do mundo. Em suma, o Nirvana era isso, mas também era muito mais.

Para o bem e para o mal, o Nirvana foi a banda que arrebentou com a barreira que separava o rock independente do rock mainstream. Depois deles, a indústria nunca mais foi a mesma.
Cobain oscilava entre o gênio sensível, compositor de obras belíssimas e o escroto drogado que brigava e exigia a maior parte dos direitos autorais das músicas contra companheiros de longa data, como é o caso do Chris Novoselic. Outros atos também depunham contra a imagem de rockeiro “rebelde” que ele tentava passar para o grande público. Em alguns instantes a gente vê claramente o quão mesquinho era o sujeito. 

Kurt também era hábil em florear histórias. Mitificar e fantasiar acontecimentos banais para ser cool. Só pra citar um exemplo: para demonstrar que tinha “atitude”, Kurt dizia que o primeiro show que havia assistido era um do Black Flack (seminal banda de punk rock americana). A verdade era diferente: o primeiro show da vida Mr. Cobain havia sido um do Sammy Hagar. 

Mas é incontestável que o grande problema na vida de Kurt Cobain foram as drogas, em especial, a heroína que o consumiu com efeito voraz.

Muito se comenta sobre o fato de Courtney ter sido má influência para o músico no uso de drogas pesadas, o que é facilmente desmentido através de vários e vários relatos e acontecimentos. 

O lance é que Kurt Cobain era auto-destrutivo por excelência, destruiu-se por si só, e mesmo com todos os tratamentos e internações não foi capaz de superar seus maiores demônios. O resultado disso tudo, a gente já conhece bem.

Mas o livro também traz momentos muito divertidos como o episódio em que eles sacaneiam e tocam a introdução de “Rape Me” ao vivo no MTV Vídeo Music Awards para desespero dos executivos conservadores da emissora. Ou quando, em um show do Nirvana, ninguém menos que Eddie Van Halen aparece bêbado nos bastidores e se ajoelha implorando para fazer uma participação no show. Cobain, irredutível, nega e ignora o guitarrista. Coisas da vida. Histórias do rock.

Ao enfiar um balaço na cabeça, Cobain abreviou uma carreira que poderia ser ainda mais interessante que já era. Não cabe a este que vos escreve dizer se ele foi covarde ou se foi corajoso. Esse tipo de atitude demanda análises e mais análises que dificilmente obteriam respostas plenas, mas o mais importante de tudo nunca volta: a vida.

E vida e vigor eram o que emanavam das guitarras, da voz e do fundo da alma daquele loirinho que cantava e berrava como se fosse a última vez que estivesse no palco.
E isso, morte alguma pode evitar.